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Posted by : wagner elias 23 maio 2014

Se você não leu a 1ª parte, clique aqui.

Continuando com a segunda parte da matéria vamos falar sobre os "comos" de uma narrativa mitológica nacional. Mas, antes de tudo...
Atenção! se liga aí que é hora da revisão:
  Na primeira parte dessa matéria nós abordamos sobre os porquês de tanta gente torcer o nariz quando se trata de quadrinhos com temática folclórica nacional. Comparamos uma antiga lenda japonesa com uma indígena e percebemos que ambas possuem  linguagem e elementos muito semelhantes. Consideramos também a diferença entre o que fazer e como fazer, e concluímos que a maneira como os mitos estrangeiros são representados e apresentados ao público são bem mais interessantes do que a forma como a nossa nos foi  manifesta.
  Agora nós vamos explorar o "como", ou seja, os aspectos metodológicos que podem configurar o uso da mitologia em uma história em quadrinhos. Vamos então estabelecer alguns métodos com base em critérios inadequados comumente aplicados na maioria das obras folclóricas nacionais que foram e têm sido responsáveis pela elucidação deficiente da mitologia brasileira.

  Deixe fluir
   Já reparou que todo quadrinho folclórico vem repleto de mensagens sobre preservação da natureza ou valorização da cultura? A ideia de que personagens mitológicos apenas atendem a finalidades exclusivamente alegóricas faz nascer estereótipos estupidamente irritantes. Para que seja crível o folclore deve ser espontâneo. Se você tenta forçar isso, pode acabar parecendo ufanista ou superficial. Muitos artistas que tentam representar o folclore o fazem em caráter compulsório, como se quisessem impor valores culturais ou reclamar direitos de representatividade. Não é errado usar sua arte para manifestar uma ideia ou conceito, mas você precisa fazer isso sem parecer autopiedoso. É o mesmo problema que existe na maioria das representações de classes minoritárias pelos veículos midiáticos. Tudo parece falso, coagido e político. É mais ou menos assim: a novela das oito resolve que sua protagonista será uma mulher negra. O nome da dita cuja tem que ser Preta, Morena ou qualquer outro que enfatize o uso de uma protagonista negra. E todo o universo dessa protagonista deve contribuir para essa enfatização, como se usar uma protagonista que não seja branca fosse um mérito. Por outro lado, o processo fica muito mais natural e honesto se for feito de forma inclusiva em vez de reivindicatória ou apelativa. Em resumo, não tente estampar o folclore na sua história apenas para agregar valores culturais. Ele só precisa estar lá (se for preciso).

  O objetivo é entreter
  Antes de abrir a revista você já sabe o que encontrará. Basta olhar a capa e ver um curupira, uma mula-sem-cabeça ou um boitatá, é sempre a mesma coisa: parece que você tá lendo um livro ilustrado. De fato, já se tornou quase obrigatório o caráter pedagógico em obras baseadas em folclore. Sim, as pessoas ainda categorizam o folclore como elemento diretamente convencionado ao propósito educacional, sem perceber a diversidade de aplicações e funções que pode desempenhar, como o entretenimento puro. Não estou dizendo que o caráter didático é ruim por si só. Não há nada de errado em produzir material com objetivo instrutivo utilizando elementos folclóricos. O erro está em acreditar que essa é sua única função.
  Se você quer fazer uma boa história para fins de entretenimento e resolveu usar o folclore como fonte de inspiração, mantenha o foco no objetivo principal. Por exemplo, uma atividade didática pode ser lúdica mas se você abusar dos recursos recreativos ela pode se transformar em uma brincadeira descomedida, desviando-se assim do seu objetivo principal que é ensinar. Da mesma forma um produto destinado ao entretenimento não pode se preocupar demais em ser instrutivo, pois isso pode torná-lo enfadonho. Por exemplo, apesar de ser repleto de lendas Dragon Ball não tem o objetivo de educar, mas sim o de entreter. Já pensou então se em cada episódio você aprendesse lições de bom comportamento, ou prevenção de doenças, ou história geral? Não seria ruim se fosse um livro didático, mas em um mangá como Dragon Ball, cujo objetivo é descontrair, seria desnecessariamente cansativo. Enfim, quando um leitor compra uma HQ entretível (essa palavra não existe) ele espera primeiramente se entreter, e não estudar, muito embora, em algum momento, possa usá-la no processo educacional.

  Pesquisar nunca é demais
  Muitos artistas decidem usar o folclore brasileiro em suas histórias apenas pela autenticidade do fator típico envolvido. Alguns, porém, acabam traçando um caminho inverso, fazendo do elemento mitológico o agente responsável pela perda da autenticidade. Isso pode ser culpa da limitação intelectual somado ao apego excessivo a predileções. Imagine um saci musculoso com uniforme colorido que patrulha a cidade defendendo os fracos. Ou um garoto chamado curupira que luta artes marciais e se une a uma garota da cidade pra ir em busca de um artefato mágico. O que falta em ambos os casos é aprofundar-se mais nos elementos folclóricos representados. Por outro lado, a presença de conceitos defasados fica evidente. O enredo resume-se a uma história de super herói tradicional protagonizada por um Saci genérico ou um shonen convencional com um curupira no lugar do Goku. Sim, eu fui hiperbólico nesses exemplos, mas a realidade não difere muito das hipóteses que mencionei. De fato, a maioria dos aspirantes a quadrinistas (ou até mesmo alguns profissionais) acreditam que sua experiência com leitura de quadrinhos é suficiente para produzir boas obras.
  Pra escrever sobre algo, é preciso conhecer. E quando digo conhecer, não me refiro à experiência que você adquiriu nas aulas da professora Edileuza. Pesquise, estude, entenda o que você vai usar. Claro que você não precisa (nem deve) explicitar tudo detalhadamente. Alan Moore, em seu "Alan Moore's Writing For Comics" escreve:
Antes de escrever V de Vingança, por exemplo, me peguei com um
volume de informações sobre o mundo e as pessoas que nele vivem, muitas das
quais jamais seriam reveladas na HQ pela simples razão de não serem essenciais
para o conhecimento dos leitores e provavelmente por não haver espaço
suficiente onde colocá-las . Isso não é importante. O que é importante é que o
escritor ou escritora deve ter uma clara imagem do mundo imaginado em todos os
seus detalhes dentro de sua cabeça durante todo o tempo.
  Ou seja, não é porque não vai estar presente no trabalho final, que você não deva conhecer. Eu chamo isso de quebra-cabeça conceitual. Imagine uma peça de um quebra cabeça. É apenas um pequeno detalhe de uma imagem inteira. Porém, pra compor esse pequeno detalhe foi preciso definir o todo. Ou seja, o seu roteiro é uma pequena peça de um grande quebra-cabeça conceitual que você precisa ter predefinido na sua mente.
  É fato que material de pesquisa é um pouco escaço no que diz respeito ao folclore brasileiro, já que a maior parte da nossa mitologia não foi registrada, mas apenas passada oralmente de geração em geração. Mesmo assim você pode encontrar boas fontes de pesquisa sem muito esforço. Um dos nomes mais importantes nessa área é o historiador, antropólogo e jornalista Câmara Cascudo, especialista em cultura brasileira, que compôs uma ampla obra no âmbito folclórico. No final desse post vou mencionar as principais delas.
  Repito: para escrever sobre algo, é preciso conhecer. Talvez você queira usar uma referência sem se aprofundar tanto na lenda original. Mesmo assim, quanto mais você souber a respeito da fonte de inspiração, mais ela poderá inspirá-lo.
  O público não precisa ser infantil
  Não, eu não disse que não pode, mas sim que não precisa. Talvez, pelo mesmo motivo pelo qual todo mundo acha que quadrinho folclórico tem que ser impreterivelmente didático, todos também acham que esse gênero deve ser exclusividade destinado à faixa infanto-juvenil. Recentemente vi num post do MdM a seguinte frase dita pelo Poderoso Porco em uma análise crítica da HQ Iara - Uma lenda indígena em quadrinhos:
Quando este álbum da Editora Nemo aportou aqui no Chiqueiro, achei que seria um excelente presente para a pequena Sobrinha Porco. Afinal de contas, quadrinhos infanto-juvenis não são muito a praia aqui do MdM.
  Reparou no trecho em negrito? Não condeno o cara por essas palavras, afinal é isso que se pode esperar da maioria das HQs do gênero. E é assim mesmo, a maioria dos títulos que tentam empregar elementos folclóricos são obrigatoriamente infantis. As poucas tentativas de usar o tema em abordagens mais adultas, em geral não passam disso, meras tentativas concebidas por amadores.
  É importante frisar que, assim como no caso do já mencionado didatismo regente na maioria das obras folclóricas, a infantilização também não é ruim por si só. O que falta é a consciência de que existem outras maneiras de trabalhar temas mitológicos brasileiros assim como qualquer outra mitologia do mundo.
  Na 3ª e última parte dessa matéria vamos fazer uma análise com base em algumas HQs com tema folclórico, alguns com êxito outros nem tanto.
  Pra finalizar, vou deixar aqui algumas fontes de pesquisa pra quem quiser se aprofundar no tema. Não encontrei nenhum deles para leitura online plena. Então junte um cascalho e vá até a livraria mais próxima.
Dicionário do Folclore BrasileiroGeografia dos Mitos BrasileirosAntologia do Folclore BrasileiroLendas Brasileiras (Câmara Cascudo)
Contos e lendas Afro-brasileiros (J. Reginaldo Prandi, Joana Lira)
As 100 Melhores Lendas do Folclore Brasileiro (A. S. Franchini)
Mitos Indígenas (Betty Mindlin)

{ 2 comentários... read them below or Comment }

  1. Fiz um comentário na outra publicação e gostaria de falar com vc ...

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    Respostas
    1. Olá, desculpa não ter respondido antes. Estou sem PC há algum tempo. Dei uma olhada no projeto "Batalha de Mitos" e achei muito interessante. Fiquei até com vontade de escrever uma matéria a respeito. Quanto À conversa, bom, sou meio antiquado quando a questão é internet, por isso nunca usei o Skype. E como estou usando o computador da empresa (que filha da mãe que eu sou) não posso instalar o programa aqui. Nesse caso podemos conversar pelo facebook.

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