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Posted by : wagner elias 25 abril 2014


Plot Twist  pode ser traduzido literalmente como reviravolta no enredo. Trata-se exatamente do que o nome sugere: uma mudança drástica nos rumos de uma narrativa dando-lhe uma perspectiva totalmente nova e contrária à inicial. O plot twist é um recurso narrativo presente na literatura, teatro, cinema e também nos quadrinhos. Essa técnica em geral tem como objetivo surpreender o leitor/espectador. Pode ser usado no meio da trama para recuperar o interesse do público ou no final da trama causando um final surpreendente.
 Em outras palavras, o plot twist faz você ficar com essa cara:

  Um dos maiores usuários de plot twist no mundo dos mangás (em minha humilde opinião) é Yoshihiro Togashi. Não vi uma série desse cara que não contenha um monte de reviravoltas das mais criativas que você poderia imaginar. O mais interessante de todos (de novo na minha humilde opinião) está em um capítulo de Level-E, onde lemos uma história inteira para no final descobrirmos que se tratava apenas de...
 Não, não vou dar esse spoiler.
  Outros mangakas que usam esse recurso com maestria são Naoki Urasawa,  Tsugumi Ohba, Kentaro Miura e por aí vai.

  Existem diferentes recursos que podem ser aplicados para provocar um plot twist como o red herring, a arma de Chekhov, o Deus ex machina, dentre outros dos quais falarei individualmente aqui e agora:
  Vou dividir os vários recursos narrativos em grupos:

  1- Elementos circunstanciais
  Este primeiro grupo é composto por elementos concebidos a partir das condições, do contexto, do ambiente, enfim, do meio em que se passam os fatos.

  Anagnórise
 Um dos  recursos narrativos mais usados nas telenovelas é o anagnorise. O termo foi usado pela primeira vez na "Arte Poética" de Aristóteles e significa literalmente reconhecimento. O filósofo grego usou o termo para definir um recurso narrativo que consistia em tornar conhecida uma verdade até então oculta no enredo, geralmente a respeito de grau parentesco, mudando no personagem de maneira drástica tanto o conceito sobre si mesmo e do mundo em sua volta quanto sua maneira de agir a partir de então. É aquele momento em que o Félix descobre que seu filho não é seu filho, mas sim filho do seu pai com sua própria esposa (não acredito que tô usando isso como exemplo). Mas, como eu disse antes e complementando, as novelas são o maior usuário desse recurso, tanto que se tornou quase uma marca registrada. Do que mais você lembra quando vê frases como "ela não é sua mãe" ou "você não pode casar com ele porque ele é seu irmão"? A anagnórise acabou se tornando um recurso banal, mas quando bem utilizado pode gerar um plot twist realmente surpreendente. Além disso, até aqui, os exemplos que dei do uso desse recurso foram exclusivos da tragédia, assim como sugere Aristóteles, mas não posso deixar de mencionar que a anagnórise pode ser usada em qualquer gênero, inclusive a comédia.

Um exemplo clássico de anagnórise:
Star Wars
Luke descobre que Dart Vader matou seu pai. No filme seguinte é revelado que o vilão é o próprio pai de Luke.
Peguei essa imagem no Empowered presentations

  Peripeteia ou peripécia
  Também definido por Aristóteles, é "a mutação dos sucessos no contrário" como o filósofo menciona em sua "Arte Poética". O recurso consiste em causar um efeito inesperado a partir da ação do protagonista, oposto ao intencionado por ele, incorrendo em uma mudança drástica, geralmente trágica. Aristóteles insistia que a peripécia não pode ser concebida por mero acaso, mas por decorrência de um erro do protagonista, o que o pensador define por hamartía. Em termos simples, peripécia é quando o cara tenta fazer uma coisa bacana e acaba fazendo merda sem querer. Como em Kungfu Panda, quando o mestre Shifu é avisado da possível fuga do terrível Tai Lung. Ele envia uma mensagem para dobrar a segurança na fortaleza, mas o subordinado que foi levar a mensagem deixa cair uma pena que Tai Lung usa para abrir o cadeado.
  Ainda segundo Aristóteles, um bom enredo alia os dois recursos, ou seja, a anagnórise decorrendo diretamente da peripécia, tipo: "Você matou o bandido! Mas o que você não sabe é que ele era seu pai"

  Justiça poética
  Consiste basicamente na punição do mal ou gratificação do bem. Em outras palavras é quando o vilão prova do próprio veneno. Este recurso é amplamente usado em fábulas (onde uma lição de moral é dada no fim ao se mostrar as consequências que seus atos podem ter sobre você) e possui grande representação nos clássicos da Disney.


  Deus ex machina
Mais usado pelos apelões que não tem ideia pra solucionar um problema de maneira descente. O Deus ex machina (Deus procedente da máquina) surgiu no teatro grego. Era mais ou menos assim: a peça ia acontecendo e, quando tava perto do fim e ninguém entendia o porquê dos fatos, do nada descia um cara amarrado num guindaste representando um deus que explicava tudo e resolvia milagrosamente todas as pontas soltas. Hoje esse recurso é usado geralmente quando o cara acumulou um monte de problemas sem solução e, na falta de ideias, insere um elemento novo na trama que ninguém sabe de onde veio e resolve o fuzuê todo. Pode ser um personagem novo que aparece do nada, uma habilidade que o personagem nunca mostrou antes, um fenômeno natural que ninguém previu, um item encontrado de repente, enfim, qualquer solução que fuja da lógica da trama.
  Nos mangás shonen o Deus ex machina reina, principalmente nos mais antigos, e se manifesta geralmente nos chamados nakama power, quer dizer, o poder da amizade. É quando o roteirista colocou um vilão tão poderoso que é impossível para o protagonista derrotá-lo. Então, quando o cara tá todo ferrado e essa diferença de poderes fica evidente não tem mais nada a fazer além de inventar uma desculpa esfarrapada pro cara ficar superforte de repente, sem ter treinado nem nada.

Fairy  Tail, o campeão de Deus ex machina


O Deus ex machina é uma falha crítica no enredo e é mais recorrente em séries, pois estas costumam acumular muito abacaxi até não ter mais faca suficiente pra descascar tudo, e lasca-se Deus ex machina. Enfim, não use esse recurso a menos que você esteja realmente desesperado.

2- Elementos temporais
  São recursos narrativos que manipulam a cronologia ou, de algum modo, se beneficiam dela para surpreender o público.

  Foreshadowing
  Pode ser traduzido como prenunciado, ou seja, é a previsão de um enunciado futuro. Esse artifício literário é usado para dar dicas ao leitor/espectador sobre o que o espera no decorrer da narrativa, mesmo que talvez seja uma dica falsa. Assim o foreshadowing pode aparecer de diferentes formas:

    - Flash forward
    É o oposto do flash back. Trata-se de uma previsão do futuro, seja como estrutura cronológica da narrativa (quando uma passagem futura é apresentada antes ou durante os acontecimentos presentes por opção do narrador, mas que em nada influenciam a história) ou como um evento dentro dela (quando o evento é apresentado a um ou mais personagens, interferindo diretamente na trama). Os episódios de Lost são repletos de flash forward com cenas que acontecerão no futuro sendo apresentadas no meio, o que permite ao espectador ficar ansioso para descobrir como a história foi parar naquele ponto. Pra ilustrar, vou contar uma historia:
"Tiago e Sebastião eram uma dupla sertaneja que rodou o mundo em busca do sucesso. Eles acabam voltando pra casa carregando três corpos em uma carroça roubada. Quer saber como tudo isso aconteceu?"
  Sacou qual é a parada? A surpresa ocorre no momento em que você descobrir o que levou a dupla àquele estado. Está aí o plot twist.

   - Arma de Chekhov
  Este recurso narrativo baseia-se nas palavras do dramaturgo russo Anton Chekhov: "Se no Ato I você tem uma pistola pendurada na parede, ela deve ser disparada até o último ato"
  A arma de Chekhov é uma pista de algo que pode acontecer no futuro. Entretanto, essa pista não pode ser evidente e deve ser apresentada da maneira mais sutil possível. É em geral um elemento presente na história que parece ter pouca ou nenhuma importância, mas que se revela fundamental em algum momento no futuro.
   - Red herring
  É o avesso da arma de Chekhov. Assim como tal, trata-se de uma pista para um possível evento posterior, porém é bem explícito. Um objeto que parece ser a chave para a resolução de um problema ou um guerreiro que é visto como a única esperança para a salvação. Entretanto, diferente do conceito elaborado pelo dramaturgo, o red herring se consuma quando é revelado que aquele elemento que parecia imprescindível revela-se banal.
   A arma de Chekhov e o red herring funcionam muito bem quando usados em conjunto: um elemento aparentemente importante é banalizado enquanto um outro totalmente trivial mostra-se crucial. Um bom exemplo é o filme MIB- Homens de Preto, onde uma pista é deixada através de uma frase: "a galáxia está no cinturão de orion". Enquanto todos ficavam se perguntando como a galáxia poderia estar dentro de uma constelação, a presença de um gatinho chamado Orion que possui uma coleirinha no pescoço passou despercebida.
   

  In medias res
  Essa é pra quem gosta de começar direto na ação. Sabe quando você começa a desenhar sua história e não tem paciência pra ficar enrolando com diálogos na sala de aula ou com o mestre explicando ao discípulo que a força nunca prevalece e bla bla bla? Pois é, nesse momento a sua vontade é de começar logo na ação, no momento mais interessante no qual você passou um tempão elaborando. Quem disse que você não pode fazer isso? Esse recurso proposto pelo poeta romano Horácio em seu "Ars Poetica" onde ele diz:
     "Nem deve ele começar a Guerra de Troia a partir do ovo duplo (início), mas sempre adiantar-se na ação e agarrar o ouvinte no meio das coisas (in medias res)…"
  Sacou? Mas é preciso lembrar que, para que ocorra o efeito plot twist é preciso haver o momento da reviravolta. E nesse caso ele acontece justamente quando são revelados os acontecimentos que levaram até o presente momento onde se passa a ação. Ou seja, não basta começar logo na pancadaria, é preciso pensar num motivo muito louco pra que tudo aquilo esteja acontecendo.

Berserk começa no meio da história pra depois contar como o protagonista chegou à situação desgraçada na qual se encontra

  Enredo fora de ordem
  Na verdade este termo não é oficial. Inventei ele agora pra economizar parágrafos pois ele define bem os dois últimos recursos narrativos que consistem em interferir na cronologia reposicionando os acontecimentos em ordem diferente do normal. Assim você pode inverter a ordem dos fatos, como em memórias "Póstumas de Brás Cubas", transformando a causa de todos os fatos apresentados em um clímax surpreendente, efeito que chamamos de Ordem cronológica reversa. Ou você pode apresentar todos esses eventos aleatoriamente formando na trama uma espécie de quebra cabeça que, ao ser montado pelo leitor/espectador, desencadeia-se em um inesperado plot twist. A esse recurso damos o nome de enredo não linear.
  
Enfim, Existem diversas outras formas de causar uma reviravolta na trama. Apresentei aqui apenas algumas das que conheço. Mas não se prenda a paradigmas. Use esse conhecimento apenas para se conduzir. E lembre-se, mesmo que você prefira quebrar as regras, é preciso conhecê-las antes.

  E como sempre deixo vocês com algo que não tem nada a ver com o assunto:

A jornalista Vanessa Bencz esteve nessa quarta feira no programa Fátima Bernardes falando do seu projeto de quadrinhos: "A Menina Distraída".


É a rede globo valorizando o quadrinho nacional!


{ 4 comentários... read them below or Comment }

  1. Ótimo post, já conhecia o termo plot twist mas seu texto foi muito mais informativo do que qualquer coisa que eu já havia lido

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    1. Bom saber que fomos úteis. Obrigado por ler o nosso blog.

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  2. Valeu amigo, muito informativo e interessante esta matéria. Agora entendi muitas das estórias que li e leio. Parabéns!

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  3. Ótimo texto, me informou bastante. :)

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