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Posted by : wagner elias 18 novembro 2011



Saudações caros leitores! 

Há dois dias atrás, enquanto fuçava o facebook atrás de informações sobre o concurso de Novos Talentos da Ação Magazine, eu me deparei com uma matéria curiosa do Fábio Sakuda(que não é do verbo sakudir) em seu blog pessoal. A matéria tem como objetivo dar algumas dicas para aspirantes a quadrinhistas, possíveis participantes do concurso acima mencionado. Eu achei a matéria não só interessante, mas tanto quanto oportuna, de tal maneira que me senti induzido a abrir esta seção aqui no Gibitales. Através dela irei dar dicas para os quadrinhistas em potencial que pretendem se aventurar por essa terra estranha e incerta chamada quadrinhos, mas ainda não conhecem muito bem o território. Pois bem, se estiver precisando de um guia, estou a dispor.

Antes de mais nada sinto-me na obrigação de lembrar que, na posição de guia, não me autodenomino total conhecedor da área a ser explorada. Entretanto, posso garantir que já andei por essas terras por tempo suficiente, e o conhecimento que adquiri durante alguns anos de experiência pode ser útil para quem ainda não ultrapassou as linhas marginais do enorme, perigoso e fascinante mundo dos quadrinhos.
Para inaugurar esta seção, resolvi partir de um conceito apresentado pelo Fábio na matéria que já mencionei. Lá, o editor da Ação Magazine dá algumas dicas a respeito de como criar um bom roteiro e, dentre elas, a primeira me chamou atenção:

Sequestre seus leitores até a página 4.
O Fábio falou sobre “sequestrar o leitor nas quarto primeiras páginas.” Isso não é regra, mas se você conseguir fazer isso, poderá levar o leitor adiante por muitas páginas. Pense comigo: como um iniciante você ainda não tem um público cativo, o que o obriga a ralar muito para conseguir um, e as quatro primeiras páginas podem ser fundamentais nesse aspecto. Mas aí você pergunta: como eu seqüestro o leitor nas quatro primeiras páginas? Não, você não vai precisar de um carro preto, algemas e fita adesiva.

Bom, antes de qualquer coisa lembre-se que não há regra, mas existem algumas dicas valiosas. Vou apresentar aqui alguns métodos que, se bem utilizados, podem ajudá-lo a construir um bom início e assim, “seqüestrar o leitor”.

Primeiro tenha em mente que nessas quatro primeiras páginas você deverá despertar no leitor o desejo de continuar lendo. Não importa o que você faça, se isso causar curiosidade no leitor, você terá um bom início. 
Então vamos a alguns métodos para despertar a curiosidade e o desejo de ler mais. Lembrando que as dicas propostas abaixo não precisam ser categóricas. Use apenas as que lhe forem úteis e da maneira que lhe convir.

1-     Um clímax por página
Uma das desvantagens dos quadrinhos é a possibilidade que o leitor tem de prever a ação do próximo quadro. Como assim? Veja bem, ao abrir uma página você tem todos os quadros nela à sua vista. Ou seja, enquanto lê o primeiro quadro, o último já lhe dá uma dica do que vai acontecer. Veja a página abaixo: 


Perceba que antes mesmo de ler o primeiro quadro você já tem à vista o último, e por ele ser grande e chamativo, é quase inevitável que você o veja, mesmo que de relance, o que lhe dá uma idéia do que vai acontecer com o Sanji. Isso acontece porque, nos quadrinhos, você tem várias cenas em uma única página, o que torna a leitura quase simultânea, ou seja, o intervalo entre uma cena e outra é rompido fazendo com que você pule involuntariamente algumas cenas e preveja a sequência da ação, não tendo tempo para ser surpreendido.

O que fazer?
A saída é fazer um clímax por página. Na verdade, um clímax a cada quatro páginas (em média), e assim,prolongar o intervalo de tempo entre um quadrinho e outro. Como? Veja a página abaixo:


A página acima ilustra bem o uso do intervalo entre páginas. Todos os personagens estão apreensivos, à espera de uma resposta. De repente a pessoa que trará a resposta chega mais cedo do que esperavam e diz: estou chocado. O que isso significa? Vire a página e descubra. Pra ser mais específico, o intervalo entre a página ímpar e a par é o maior intervalo de tempo que os quadrinhos podem oferecer. Note que o último quadro gera um mistério, uma expectativa que induz o leitor a virar a página, e o tempo que ele leva para fazer isso é suficiente para que pense: e agora, o que vai acontecer? É o que eu chamo de o fator surpresa. Se você conseguir despertar essa curiosidade em uma a cada quatro páginas a atenção do leitor será sua.
Mas existe uma maneira de prolongar ainda mais esse intervalo entre páginas, se você souber ir além do último quadro. Existe um tipo de transição de quadros que Sccot McCloud chama em seu livro “Desvendando os Quadrinhos” de transição aspecto para aspecto, e que, embora pouco utilizado no ocidente, tem sido explorado com maestria pelos mangakás durante décadas de história. Esse tipo de transição permite que o leitor passe algum tempo divagando por entre quadrinhos nos quais, no fim, simplesmente não acontece nada. Mas pra que fazer vários quadrinhos para apresentar nada mais que uma mera ausência de ação? E será possível utilizar isso nas minhas primeiras quatro páginas de modo a despertar no leitor a curiosidade e o desejo de ler mais? Antes de responder vamos a outro exemplo:



Note que as páginas acima não mostram nada além de um único momento visto por diversos ângulos. Mas o ar de mistério que permeia a cena faz com que você queira saber o que aconteceu aqui. Ou seja, você tem uma página inteira para fazer o leitor pensar, especular, deduzir e, por fim, virar a página e ser surpreendido. Se o que vier em seguida for uma sequência interessante o suficiente para causar o fator surpresa, parabéns, a atenção do leitor é sua.

1-     Um horizonte à vista
É importante lembrar da terceira dica do Fábio. Qual o momento certo para dar início à trama? A resposta é: não demore muito. Ou seja, não existe um momento certo, mas você não pode ficar por muito tempo preso ao cotidiano dos personagens. E as quatro primeiras páginas podem ser o momento certo algumas vezes.  Mas, como fazer isso? Como o Fábio disse, tire o personagem de seu cotidiano. Crie uma mudança na vida do personagem que vai levá-lo ao desenvolvimento da trama. Nesse ponto é importante mencionar que toda história possui um objetivo e esse objetivo deve ser apresentado logo no início. Então, por que não usá-lo imediatamente para “seqüestrar o leitor nas quatro primeiras páginas”? –  Mais uma vez, isso não é regra; é apenas uma dica de como se pode aplicar o princípio proposto neste tópico –  Logo no início da trama apresente o objetivo do seu protagonista que o guiará durante todo o desenvolvimento. Não importa se ele alcançará ou não esse objetivo, o importante é que o leitor tenha um horizonte à vista. Se você conseguir fazer isso terá capacidade de levar o leitor para onde você quiser. Vamos ver um exemplo de como isso pode ser utilizado na prática:



Viu? note como eiichiro oda usa a primeira página para apresentar um objetivo. nas páginas seguintes você poderá ver como o protagonista se envolve com esse objetivo de forma a traçar um horizonte a ser seguido (para quem  ainda não leu o mangá clique na imagem da página). Muitos mangakás experientes lançam mão desse recurso para prender a atenção do leitor e despertar a vontade de continuar lendo. Ao mostrar o objetivo do protagonista fazendo-o parecer importante, o leitor se envolverá naturalmente com esse objetivo e irá não apenas sentir vontade de continuar a leitura, mas vai torcer para que o objetivo se cumpra e esperará isso com ansiedade.

2-     Gerando polêmica
Certo palestrante de não sei que época sempre iniciava seus discursos com a mesma sentença. Qualquer que fosse o assunto do discurso, ele sempre os começava com uma breve introdução onde falava a respeito da família Borgia, mencionando toda a corrupção e depravação que lhe deram fama, destacando principalmente as relações incestuosas que aconteciam entre seus membros.
Dizem que depois dessa introdução a platéia direcionava total atenção ao palestrante e, daí em diante, ele podia falar o que quisesse, pois a atenção da platéia lhe pertencia.
Bom... o que acabei de dizer acima é apenas paráfrase do que me disse o professor Neres na época da faculdade. Na verdade não lembro sequer o nome do palestrante mencionado, mas o método usado por ele é exatamente o mesmo que muitos artistas tem utilizado nos quadrinhos: a polêmica.
Veja os jornais sensacionalistas. Quais são as notícias que se destacam na primeira página? Isso mesmo, as mais polêmicas!

Crie uma situação polêmica nas quatro primeiras páginas e o leitor não vai mais largar a revista enquanto não terminar de ler sua história.

Nota: preferi não colocar nenhum exemplo de como isso pode ser usado.
 
Mas tome cuidado. Lembre-se que é preciso ter bom senso. Não adianta ser polêmico por ser polêmico – tenha certeza de que a polêmica gerada no início tenha um propósito; use esse recurso sempre com sabedoria e você terá não só uma história que vai ser lida por muitos, mas uma boa história que será lembrada por muito tempo.

3-     O que o leitor quer ver
Não esqueça, seja qual for a sua história, o objetivo será sempre o mesmo: agradar ao leitor.
Aí talvez você esteja pensando: “faço o que gosto e não ligo para a opinião dos outros”. Bom... não tenho nada contra, mas nesse caso, sugiro que você faça suas obra, guarde-a no fundo da gaveta e nem pense em publicá-la, afinal, publicar uma obra implica na intencionalidade de que ela seja aceita por um público. E, claro, ninguém vai aceitar aquilo que não gosta. Então, se você quer publicar sua obra, tenha em mente não só o seu gosto pessoal, mas o gosto do público.
Dito isso, vamos à nossa próxima dica: mostre o que o leitor quer ver.
Então, o que o leitor quer ver? Vai depender de quem você quer que seja o seu leitor.
Pergunte-se: quem é o meu público alvo? Que tipo de pessoas eu quero atingir com minha história? Para responder a essas perguntas você precisa saber primeiro que tipo de história você quer contar. É uma comédia? Se for, de que tipo ela é? Ou será que é um drama? Qualquer que seja o gênero da sua história, deixe-o evidente desde o início.
Por exemplo, digamos que sua história seja uma comédia. Se nas quatro primeiras páginas você mostrar uma situação dramática, as pessoas que gostam de comédia não vão se interessar pelo conteúdo e vão abandonar sua história antes mesmo de descobrir que se trata do gênero cômico. Por outro lado, os únicos que se interessarão pela história a ponto de continuar lendo além das quatro primeiras páginas logo descobrirão que se trata de uma comédia e, decepcionados, também abandonarão a sua história. Nesse ponto nós lembramos das palavras do Sakuda: “sequestre seus leitores até a página 4! E ai, não importa mais se sua história é boa ou ruim, eles lerão até o final.” Bom...não preciso mencionar a intenção hiperbólica da frase.

Em resumo, mostre o que você quer desde o início. Se fizer isso terá maior facilidade em conquistar o público certo. Veja no exemplo abaixo como o mestre Akira Toriyama, em sua obra Sand Land deixa claro desde o início que clima irá compor todo o resto da história. Perceba que logo nas primeiras páginas você já reconhece um clima de aventura no deserto com pitadas de comédia em um mundo fantástico de seres míticos que vivem à margem da sociedade. Pronto, está traçado o caminho. Daí em diante Akira segue um percurso linear sem fugir do gênero apresentado no início, pois ele sabe o que o seu público quer ver.



 


  


Um bom início pode garantir o sucesso de um mangá, mas não se esqueça: o começo não é tudo. Não é a toa que o cancelamento de títulos é tão comum na Shonen Jump.  Embora o início seja um fator importante, e até determinante, o leitor tem todo o direito de se desinteressar pela história durante o seu desenvolvimento, e a obrigação de evitar que isso aconteça é sua e não dele. Portanto, não se preocupe apenas em seqüestrar o leitor nas quatro primeiras páginas, mas mantenha-o encarcerado até o fim.
As dicas aqui mencionadas não são de exclusividade das quatro páginas iniciais. Você pode adaptá-las e usá-las como quiser durante o desenvolvimento da trama. Mesmo assim, estarei trazendo dicas específicas nesse quesito em posts futuros. Espero ter ajudado não só aos participantes do concurso da Ação, mas a todos os que pretendem ingressar no perigoso e tão prazeroso ramo dos quadrinhos.

nota: todas as páginas de mangás exibidas aqui podem ser lidas online clicando nas respectivas imagens.
FONTES:
http://www.anymanga.com/sandland/001/001/006/
www.mangasproject.xpg.com.br
www.anymanga.com

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